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jan 3, 2022
Perspectivas para 2022
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No final de 2020, as expectativas para 2021 eram de forma geral excessivamente otimistas, e não só no Brasil. Muitos tomavam a rápida recuperação da economia e do comércio mundial – no formato em “V” – ao longo do segundo semestre de 2020 como uma tendência que se estenderia em 2021, especialmente com a perspectiva de vacinação em massa. Nessa linha, no início do ano, muitos chegaram a afirmar que o mundo estaria diante de um novo superciclo de commodities.

O otimismo não decorria da natural dificuldade de mapear fatores de risco, mas de ter diagnósticos falhos sobre as razões da rápida recuperação, sendo algumas delas transitórias, como as medidas de socorro dos governos e a acumulação de estoques pela China. Pior, foram ignorados possíveis efeitos colaterais das medidas de estímulo, no caso a volta da inflação.

A situação real da economia em 2021

Os estímulos econômicos foram excessivos. De acordo com o Atlantic Council Tracker, os quatro maiores bancos centrais – Fed, BoJ, BCE e BoE – injetaram US$9,1 trilhões na economia em 2020, tomando a variação do balanço patrimonial das instituições; a cifra equivale a aproximadamente três vezes o executado em 2008 por conta da crise global. Isso sem contar as ações pulverizadas nos demais bancos centrais mundo afora.

Somam-se a isso as substantivas políticas fiscais, um elemento praticamente novo no cenário, que trouxe consigo a semente da inflação. Diferentemente do relaxamento quantitativo, cujo impacto inflacionário depende do aquecimento do crédito – o que depende de muitas mais variáveis –, o impulso fiscal trouxe mais riscos pois foi em boa medida direcionado a indivíduos. As magnitudes impressionam: 12,7% do PIB na média dos países avançados e 3,6% nos emergentes (o Brasil destoou, com 8,3%), segundo o FMI.

Adiciona-se a isso as mudanças de hábitos dos indivíduos no isolamento social, que implicaram um significativo aumento da demanda de bens associados à tecnologia digital e ao conforto no lar. Com os gargalos no suprimento de insumos impostos pela pandemia, estava completa a fórmula para a alta da inflação: o velho conhecido descasamento entre oferta e demanda. Como se não bastasse, as preocupações com meio ambiente trazem custos associados a transição energética – mas aí seria querer demais que se antecipasse esse elemento de pressão inflacionária.

Desdobramentos para 2022

O resultado final é que 2021 decepcionou, e deixou consequências para 2022, quando deve prosseguir a desaceleração em muitos países. A mudança de orientação de política dos BC´s não decorre de o impulso monetário não ser mais necessário, mas da necessidade de combater a inflação. Machuca mais.

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No Brasil não foi diferente. Otimistas, os analistas esperavam Selic em 3,5% aa em dezembro de 2021 e variação do IPCA de 3,3%, enquanto se fecha o ano com inflação de 10% e Selic quase lá. Sem surpresa, a “gordura” de valorização da bolsa em relação à de emergentes encolheu bastante.

A má notícia para 2022 é que o Brasil já vive um quadro praticamente recessivo – ou na melhor das hipóteses de estagnação –, a julgar pela trajetória de (suave) queda do IBC-Br. E é sobre essas condições frágeis que incidirá o aperto monetário do BC. Além disso, a inflação poderá se mostrar mais resistente do que se imagina, por várias razões: essa é uma característica de inflações elevadas (a inércia é maior); há ainda pressões de custo a se materializarem na indústria e no varejo; e a inflação de serviços tende a acelerar com a maior movimentação de pessoas.

Apesar do viés de novas revisões para pior das projeções de PIB e IPCA para 2022 (no boletim Focus estão em +0,5% e 5,0%, respectivamente), é improvável se repetir o susto de 2021, e esse é um elemento que pode contribuir para melhorar ou ao menos conter a piora de humor dos agentes econômicos. Haveria maior razão de preocupação caso o otimismo fosse exacerbado, descolado dos fundamentos. Não é o caso. Já tem uma dose de salvaguarda precificada.

O provável impacto das eleições na economia

Aqui entra a discussão sobre o tema crítico que movimentará os mercados, bem como a confiança de empresários e consumidores: eleição presidencial. Incertezas não faltam: Quem será o ministro de Bolsonaro ou Lula? Qual o compromisso do próximo presidente com a disciplina fiscal e reformas? Há espaço para a terceira via? Se sim, será alguém com capacidade política?

Na falta de respostas, cabe, ao menos, a discussão de pontos menos incertos:

  1. Ao contrário da visão de muitos, os investidores costumam dar o benefício da dúvida aos candidatos – só não ocorreu isso em 2002 por conta da surpresa de ter o PT governando. Tampouco os candidatos competitivos têm incentivo para fazer discursos irresponsáveis, principalmente no caminho para o segundo turno, pois ganhada a eleição, há um país a governar. A forma de avaliar esse ponto é comparar o comportamento dos preços de ativos – o dólar seria a medida ideal – com aquilo que seria o esperado tendo em vista os parâmetros usuais e o quadro global. Nota-se, pois, que a taxa de câmbio pouco se descolou nas últimas eleições.
  2. O tema econômico tende a ganhar importância na campanha junto ao grande público, diferentemente do ocorrido em 2018, quando a corrupção e as questões de costumes ganharam relevo. O quadro econômico frágil, por sua vez, dificultará a campanha de Bolsonaro, especialmente se a inflação se mantiver elevada (ainda que inferior à de 2021). Além disso, ele não terá a mesma ajuda do “Posto Ipiranga”, com credibilidade arranhada, e estará vulnerável ao debate eleitoral, tendo sido poupado em 2018. A fraqueza de Bolsonaro é a condição para o crescimento da terceira via, que seria festejada pelos mercados.
  3. O nome da terceira via tende a ser alguém de centro-direita no espectro político, pois poderá capturar aqueles eleitores que votaram em Bolsonaro e se decepcionaram. Isso significa que Ciro Gomes ou outros nomes da esquerda parecem ter poucas chances, até por conta da força política de Lula. Não está garantido que serão poucos candidatos do centro, pois dificilmente alguns dos nomes renunciarão à candidatura. No entanto, a dispersão tende a ser bem menor do que foi em 2018.

Finalizando, há espaço para 2022 não decepcionar como 2021, podendo até surpreender positivamente a depender da campanha eleitoral. O que preocupa mesmo é o dia seguinte: o próximo presidente conseguirá trilhar o caminho para o crescimento sustentado de longo prazo, sustentável do ponto de vista ambiental e justo socialmente?

O artigo apresenta a visão do colunista sobre a questão abordada, e não reflete a opinião da beegin, do Grupo Solum ou qualquer uma de suas empresas. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate sobre o mercado de investimentos alternativos e suas tendências.

Por Zeina Latif

Zeina Latif é economista graduada pela USP (Universidade de São Paulo), com mestrado e doutorado pela mesma instituição. Foi economista chefe de diversas instituições financeiras, entre elas a XP, HSBC e ING Bank.

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